São os republicanos mais duros com o espetáculo de Bad Bunny no Super Bowl do que com a aplicação da lei dos ficheiros Epstein?
“Os republicanos estão a fazer mais pressão para castigar o espetáculo de Bad Bunny no Super Bowl do que para fazer cumprir a lei que ordena a divulgação dos ficheiros de Jeffrey Epstein.”
Os republicanos na Câmara dos Representantes e no Senado aprovaram quase por unanimidade, e Donald Trump promulgou, uma lei que obriga o Departamento de Justiça a divulgar os ficheiros de Epstein. Mas, depois, alguns dos mesmos líderes republicanos no Senado bloquearam ou atrasaram propostas para reforçar a execução dessa lei, ao mesmo tempo que deputados do partido exigem investigações e punições contra o espetáculo de Bad Bunny. A comparação tem fundamento, mas esquece o apoio inicial à lei de transparência e o papel do executivo nos atrasos.
O que está a ser dito
Nas redes sociais e em alguns comentários de opinião, circula a ideia de que os republicanos se mostram “mais chocados” com o espetáculo de Bad Bunny no intervalo do Super Bowl do que com a responsabilização de figuras ligadas aos ficheiros de Jeffrey Epstein. A crítica resume-se muitas vezes numa frase: o Partido Republicano quer “perseguir Bad Bunny”, mas evita mexer em “amigos de Epstein” mencionados nos documentos.
O ponto de partida são duas realidades paralelas. Por um lado, deputados republicanos qualificam o espetáculo de Bad Bunny como “ilegal”, “pura obscenidade” e “flagrantemente indecente”, pedindo uma resposta dura das autoridades federais. Por outro, críticos recordam que senadores republicanos têm bloqueado ou atrasado iniciativas para reforçar a execução da Epstein Files Transparency Act, apesar de o partido ter votado a favor dessa lei quando foi aprovada quase por unanimidade no Congresso.
O que mostram os documentos
A lei dos ficheiros Epstein: origens bipartidárias
Em julho de 2025, a Câmara dos Representantes aprovou o projeto de lei H.R. 4405, Epstein Files Transparency Act, por 427 votos contra 1, sendo o deputado Clay Higgins o único voto negativo. A lei obriga o Departamento de Justiça a rever e divulgar registos relacionados com Jeffrey Epstein, com redações para proteger vítimas, dentro de prazos definidos; o Senado aprovou uma versão semelhante por consenso e Donald Trump promulgou o diploma em novembro de 2025. As notícias e o texto legal descrevem o processo como um raro momento de consenso bipartidário em torno da transparência, com democratas e republicanos a votarem no mesmo sentido.
A execução emperra no Senado
Depois da entrada em vigor, o Departamento de Justiça falhou prazos e libertou apenas uma parte da documentação estimada em milhões de páginas, o que abriu uma nova frente de conflito político. Em setembro de 2025, o líder democrata Chuck Schumer tentou introduzir uma alteração para reforçar os mecanismos de execução e permitir que o Congresso intentasse ações judiciais para obrigar à divulgação, mas os republicanos no Senado bloquearam a iniciativa, recusando o consentimento unânime e travando uma votação rápida. Um debate posterior, registado no Congressional Record em fevereiro de 2026, mostra democratas a insistirem em mais instrumentos legais enquanto vários senadores republicanos alertam para uma alegada “politização” dos tribunais e resistem a dar mais margem para processar a Administração Trump por incumprimento.
A resposta contra Bad Bunny
No plano cultural, os republicanos organizaram uma resposta visível ao espetáculo de Bad Bunny. A Associated Press e outros meios descrevem a atuação como uma celebração da cultura latina que se tornou rapidamente num tema político, com comentadores conservadores e alguns eleitos republicanos a atacarem o espetáculo como anti-americano e indecente. Um grupo de deputados liderado por Andy Ogles enviou uma carta formal à Federal Communications Commission (FCC), alegando que o intervalo violou normas federais sobre obscenidade ou indecência e exigindo uma investigação aprofundada à NBC e à NFL, incluindo eventuais coimas e outras sanções.
Na mesma carta e em declarações posteriores, Ogles classificou o espetáculo como “pura obscenidade” e “depravações indescritíveis”, apelando a que a comissão parlamentar de Energia e Comércio abra também um inquérito do Congresso à liga e à estação televisiva. Reportagens sobre republicanos da Florida, incluindo o deputado Randy Fine, mostram pedidos para que a FCC aplique as “máximas penalizações” e até considere a revogação de licenças de emissão — uma linguagem que vai bastante além de um simples pedido de esclarecimentos. A cobertura local e de verificação de factos confirma que, embora não exista um projeto de lei específico para “prender” Bad Bunny, há vários eleitos republicanos a apresentar o espetáculo como potencialmente ilegal e a pressionar por punições regulatórias.
O contraste
Do lado dos ficheiros Epstein, não há um movimento republicano comparável para sancionar responsáveis pelo incumprimento da lei. Os documentos mostram que os republicanos fizeram parte da coligação que aprovou e promulgou a Epstein Files Transparency Act, mas que, no Senado, alguns dos mesmos líderes usaram ferramentas processuais para travar propostas que dariam mais meios para obrigar o Departamento de Justiça a cumprir, invocando receios de litigância excessiva e de fricção institucional com o executivo. Democratas e defensores da transparência sustentam que esta resistência deixou a execução da lei praticamente dependente da boa vontade da Administração Trump, atrasando a divulgação integral dos documentos.
A crítica de que os republicanos mostram mais energia política contra o espetáculo de Bad Bunny do que na aplicação da lei dos ficheiros Epstein tem fundamento: vê-se um grupo de deputados a pressionar reguladores e comissões do Congresso para agir rapidamente contra uma atuação televisiva, enquanto líderes republicanos no Senado usaram o seu poder para limitar os instrumentos legais que forçariam o cumprimento da lei de transparência. No entanto, a formulação mais absoluta esquece dois elementos centrais: o partido votou em massa a favor da própria lei que obriga à divulgação e parte dos atrasos resulta da atuação do Departamento de Justiça, não apenas de decisões do Senado. Não é rigoroso concluir que os republicanos, como bloco, “protegem” todos os nomes que surgem nos ficheiros.